Ícaro Machado
Ícaro Machado

Redator Publicitário

Pixel e Tinta

Há muito tempo, o homem nutre um desejo de imortalizar a sua imagem: estátuas, desenhos e pinturas são alguns dos artefatos que ilustram esse desejo numa verdade adornada, manipulada de acordo com os interesses da época e de seus líderes.

Você já deve ter se perguntado se existe alguma diferença entre os objetos a quem estas palavras se referem. Muitos acham que são apenas sinônimos, mas não se engane! A diferença entre imagem (pintura) e fotografia (imagem) é justamente o que dá significado a cada uma delas. Há muito tempo, o homem nutre um desejo de imortalizar a sua imagem: estátuas, desenhos e pinturas são alguns dos artefatos que ilustram esse desejo numa verdade adornada, manipulada de acordo com os interesses da época e de seus líderes.

A fotografia nasce exatamente da superação do sujeito em relação à imagem artesanal a partir da descoberta da captação da imagem na câmara escura e de sua fixação em outros objetos planos: a escrita com a luz (processo fotossensível). A fotografia ganha então notoriedade por “capturar” o momento como um corte real, ganhando, com o passar do tempo, valor documental e recebendo status de representação verdadeira e fiel do objeto.

Ao ler sobre a história da fotografia, que se entrelaça diretamente com a história da pintura, percebemos que as duas estão intimamente ligadas por apresentarem as suas raízes fincadas no desejo narcísico de eternidade. A imagem e semelhança. Ambas alimentaram por anos essa narrativa. Na verdade, alimentam até hoje. Quem nunca ouviu falar do romance do jovem Dorian Gray (“O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde), que trocou sua alma pela imortalidade e beleza, aprisionando-a em um retrato feito a óleo. No romance, o quadro envelhecia com o tempo, enquanto o jovem Dorian esbanjava beleza e infinidade.

A verdade é que as pinturas demoravam meses para serem finalizadas, além de exigir muita paciência e continuidade estática e estética do objeto ou pessoa a ser retratado. A fotografia chegou com uma execução mais rápida e carregada pela certeza de que sua missão era a reprodução fidedigna do real. O avanço tecnológico que o fazer fotográfico carregava consigo tornou a sua aceitação um tanto conturbada. Essa tecnologia de capturar a imagem e transferi-la para outro objeto sem que se pudesse acompanhar a sua feitura (tendo todo o seu processo estritamente químico) assustou as pessoas à época, que acreditavam que sua alma seria aprisionada na foto. Muitos pintores se suicidaram com o advento da técnica, pois temiam que fossem socialmente descartados assim como tememos ser substituídos por máquinas na atualidade.

Passado o período de sua demonização, a fotografia se consolidou finalmente como técnica de captação de imagem. A fotografia foi assim ganhando cada vez mais espaço. Criou-se então o hábito de fotografar o cotidiano, paisagens e pessoas. Uma característica bem marcante da Era Vitoriana foi a prática de registros fúnebres. Na época, era comum a ideia de imortalizar os entes queridos registrando fotografias dos corpos já sem vida. Sem falar nos casos onde juntavam mais de um finado para o “ensaio fotográfico“. Esse tipo de fotografia recebeu o nome de “post mortem”, ou pós-morte.

Em seguida, a fotografia ganha espaço na história com o fotojornalismo. Fotógrafos de guerra como Robert Capa foram responsáveis por registrar os momentos e enviar ao mundo notícias dos campos de batalha por meio de fotografias reais de horror e destruição – a promoção do sentimento patriota e da confabulação da guerra. O estadunidense Lewis Hine ganha notoriedade ao denunciar o trabalho infantil nas indústrias, sendo premiado por seu trabalho que serviu de alicerce para a criação de leis que impediram o trabalho infantil nas fábricas. Como se vê, a fotografia ganha força e ressignifica o papel da captação de imagem. Consolida-se como documento, mas é desconsiderada como obra de arte.

Com o avanço da fotografia na modernidade, a decadência no mercado de pinturas se tornou inevitável. Os artistas então desenvolveram a fotopintura, que era a junção das técnicas por meio da coloração de fotografia que ainda era apenas em P&B. A pintura já havia perdido o seu posto de referência na representação em imagem. A sociedade migrava para um pensamento que se aproximava mais do realismo, afastando-se da ideologia do belo fortemente ligado ao cristianismo e a pureza religiosa. Nisso, a imagem adornada pelos pintores fugia desta realidade, devido a fácil manipulação de cenários, cores, roupas e expressões. A fotografia se consolida então como um retrato fiel da realidade.

O advento da fotografia digital alterou muitos paradigmas fotográficos. Com aparelhos cada vez menores, mais simples de manipular e que produzem registros em alta qualidade (e tendo a internet como facilitadora no fluxo das imagens), a produção fotográfica se tornou algo muito mais simples e popular do que era. Para alguns, a fotografia começou a perder o seu valor documental na atualidade, tornando-se um objeto cuja prioridade se torna a estética a partir da manipulação e tratamento de imagem. A fotografia hoje pode ser considerada uma pintura em pixel, uma arte de criar imagens manipuláveis. Não que ela tenha perdido o seu valor documental, mas, com o advento de aplicativos e programas de edição, filtros e tratamento, a fotografia tem o seu papel de reprodutor da realidade em declínio. Assim, essas técnicas que envolvem o fazer fotográfico e a condição da fotografia como um objeto replicável e sem exclusividade são justamente o que interfere no status da fotografia arte.

Ainda não ficou clara a diferença? Hoje, a fotografia se confunde com imagem o tempo todo. Mas, em síntese, a fotografia deve ser um processo de captura do real sem edições posteriores que interfiram na verdade da imagem. Afinal, toda alteração na fotografia tira dela o seu sentido, tornando-a uma imagem gráfica manipulada, com valor documental duvidoso ou inexistente.

Quer saber mais sobre imagem, memória e fotografia? Indico a leitura do livro “A obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, de Walter Benjamin. Este livro apresenta um panorama mais aprofundado sobre a temática proposta.

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